segunda-feira, 19 de julho de 2021

Yuki - primeiro dia de aula

Finalmente
Finalmente
FINALMENTE

Finalmente estou saindo desse colégio que passei a vida INTEIRA para poder estudar num lugar diferente, com pessoas diferentes, conviver com mais gente. Finalmente vou poder fazer minhas escolhas. Finalmente vou poder conversar com garotos de verdade (não, os do sonho e dos mangás não contam, já que eles infelizmente não são reais). Vou poder ter um quarto só meu, sem dividir com mais ninguém. Sem risco das minhas roupas sumirem. 

Sem mais freiras enchendo o saco.

Enfim, no fim das contas não foi a madre superiora quem me levou. Foi outra irmã que me acompanhou a alocar minhas malas no MEU quarto no dormitório. 

- Margô, este é o seu quarto - Disse a freira, me ajudando a trazer o punhadinho de malas com todos os meus pertences.
Sim, meu nome é Margô. Não, não gosto muito do meu nome. Voltamos a usar o apelido que ganhei da Midori, Yuki. Me acostumei com ele e me sinto melhor assim. 
- Sim Irmã, muito obrigada pela ajuda em trazer minha mala.
- Vai ficar tudo bem querida? Tem certeza que prefere estudar nessa faculdade ao invés de continuar seus estudos no colégio? Sabemos que você seria uma excelente irmã conosco....
- Obrigada Irmã Irene, mas estou bem feliz com bolsa na faculdade, é uma oportunidade que não posso desperdiçar.... - Irmã Irene é particularmente legal. Uma das poucas com quem eu podia conversar sem ter aquela.... distância que a gente tinha com todas as outras irmãs do colégio. 
Ela olhou apreensiva para mim, mas me ajudou a alocar as malas dentro do quarto. Era um quarto pequeno, com uma cama, um guarda roupa, uma pia, uma mesa com uma cadeira, e o local para o banho. Para lavar as roupas eu tinha que ir no lavatório comunitário do dormitório, mas tinha espaço numa pequena varanda para estender as roupas. Era um luxo perto da cama velha e do baú do quarto no colégio. 
- Se cuida minha querida - Irmã Irene me abraçou - se você quiser passar os feriados conosco ou quiser voltar... entre em contato que providenciamos seu retorno.
- Obrigada Irmã Irene - agradeci ela e pensei com meus botões "espero não ter que voltar para o colégio tão cedo, quem sabe nunca mais".
Irene se despediu e partiu, me deixando a sós com meu novo quarto, minha nova vida. 

Lembrei que precisava correr para pegar as aulas da parte da manhã. Irene é tão boazinha que deixou em cima da minha mesa um mapa da faculdade (acho que nem em 6 anos eu vou aprender a andar nesse lugar direito), um caderno e uma pasta com os meu horários das minhas disciplinas e suas respectivas salas. Só ela mesmo para me fazer sentir falta (só dela). Sempre foi muito atenciosa e cuidadosa com todas as internas. 

Como já estava de uniforme, peguei meu caderno, coloquei numa bolsa pequena, lápis e caneta e saí do quarto. Ao girar a chave escuto um berro e me viro num susto, reconhecendo a voz:
- Não acredito!!!!! Yuki!!!

Midori pulou em cima de mim, com os cabelos soltos, calça e uma blusa normal. CADÊ O UNIFORME DELA??? Ela vai arrumar problemas assim! E espera um pouco.... Ela não tem aula em outro lugar? O que ela faz aqui no dormitório???
- Yuki, menina!! Que você está fazendo aqui até agora? Suas aulas já começaram! - Ela parou como se tivesse me visto pela primeira vez - Yuki, que raios de uniforme é esse??
- Midori - tentei responder no meio dos abraços - O que você faz aqui? Eu já estava indo para a aula, a Irmã Irene acabou de me deixar aqui...
- Menina, entra logo nesse quarto, pelamordedeus - Midori roubou as chaves da minha mão, abriu minha porta, me enfiou quarto adentro e trancou a porta atrás de si
- Tá doida Midori? Cadê o seu uniforme? E por que você tá questionando minha roupa?
- Yuki, yuki.... - Ela balançou a cabeça negativamente - Não existe uniforme na faculdade.
....
....
- QUÊ???
Eu estava em choque. Como assim não existia uniforme? O que era aquela roupa que eu estava vestindo então? O que eu iria vestir? Minha cabeça começou a girar.
- Anda logo menina, arruma uma roupa decente para você vestir.
Midori vasculhou rapidamente pela minha mala, mas lógico que ela não achou nada de interessante. Só havia mudas do mesmo uniforme falso, pijama e minhas roupas de ficar no dormitório. 
-Ok, espera um pouco que já já volto.
Midori escapou pela porta e desapareceu por uns 10 minutos. Ela voltou esbaforida, vermelha como um pimentão com uma calça jeans e uma blusa.

- Anda, veste isso aí rápido que você já perdeu a primeira aula inteira. Se correr dá tempo de você pegar o segundo horário. 

Sem entender muito bem, vesti o mais rápido que pude a roupa que ela trouxe. Saímos correndo do quarto e Midori foi me guiando pelos corredores do dormitório até o lado de fora. No caminho ela me explicou o ocorrido:
- Parece que a bolsa de estudos era para outra faculdade - disse ela correndo pelos corredores, segurando minha mão e me guiando, muito rápido - e essa faculdade era de outro colégio de freiras, em parceria com o nosso - meu estômago embrulhou
- Como assim?
- Não era para você ter vindo para cá - disse ela - a bolsa era para outra faculdade, mas alguma coisa deu errado. Como eles já tinham te prometido a bolsa de estudos, te alocaram para outra faculdade às pressas, que é onde eu tinha passado quando fiz vestibular. Por isso tudo foi resolvido de última hora. - ela disse enquanto saía pela porta principal do dormitório, me levando para um campo gramado e decorado com um jardim.  
- Mas isso não faz sentido - eu disse enquanto desviava de duas pessoas esparramadas na escada.
- Faz sim Yuki - disse Midori um pouco impaciente - Esse uniforme era para a outra faculdade. Lá é tipo a continuação do colégio. Não ia ser diferente do que estudamos a vida inteira. Ia ter as irmãs do mesmo jeito, uniformes, aquele mundo de regras, nada de sair do colégio....

Eu parei na mesma hora. Não sei ao certo porque. talvez seja porque me faltava ar depois da corrida por dentro do dormitório. Talvez seja pela notícia que eu quase fui para outro lugar de freiras. 
Midori ao meu lado estava ainda ofegante. Ela também respirava pesado.

-Vem, vou te levar para seu prédio. O meu é do lado e minhas aulas são só à tarde. Por isso estava passando pelo dormitório. Queria ver se conseguia te encontrar. Depois das aulas vamos dar um pulo lá em casa, não posso deixar você só com pijamas e uniformes do outro colégio.
Midori agarrou minha mão e me puxou pelo jardim do dormitório. Eu ainda estava processando tudo, mas pelo visto não poderia perder muito tempo. Afinal, para manter minha bolsa de estudos eu tinha que ter frequência e notas boas. Faltar o primeiro dia de aula seria muito, muito ruim. 

-Mas Midori, como assim na sua casa? Como vou para lá?
Midori revirou os olhos enquanto me guiava pela rua, lotada de carros, bicicletas e pedestres.
- Sabe a hora que saí e voltei com uma muda de roupa? Liguei para mamãe e expliquei que você estava aqui e de uniforme. Ela falou que quando minhas aulas acabarem, você e eu vamos lá em casa ver se algo da minha irmã ou meu serve em você. Se servir, pode pegar a vontade, minha irmã não mora mais com a gente mesmo. - Lembrei que a irmã mais velha de Midori já era casada - Depois se precisar, mamãe disse que compra umas roupas novas para você.
Senti meu rosto esquentar. Eu não podia dar esse trabalho e gasto à mãe de minha amiga.
-..
- Ela disse que você recusaria e falou que não adianta. Ela vai sim comprar para você. 
Engoli minhas reclamações. Eu conhecia só de longe a família de Midori, mas parece que os pais dela tinham um carinho grande por mim, já que, aparentemente, eu era a única amiga da filha deles. 

Midori parou na porta do prédio, respirou fundo, pegou minha pasta com meus horários e apertou o botão para chamar o elevador. Enquanto esperamos o elevador chegar no térreo, conseguimos recuperar o fôlego. Entramos no elevador, ela apertou o 7º andar e a porta se fechou.
- Ok, você se lembra como chegar no dormitório depois de sair daqui do prédio?
- Ah, mais ou menos.... mas acho que dá para me virar. A Irmã Irene deixou um mapa junto dos meus horários.
-Santa Irmã Irene - Midori exclamou - única freira que prestava daquele lugar.
Ambas rimos. Meu deus, como eu estava feliz de ver a Midori ali. Mesmo não estudando mais na mesma sala, ter ela por perto era muito reconfortante. 
A porta do elevador se abriu. Haviam muitos alunos no corredor do 7º andar, então presumi que as aulas ainda não tinham começado. Midori me acompanhou até metade do corredor, enquanto falava:
- Ok, hoje minhas aulas acabam por volta das 16h. Assim que suas aulas acabarem, almoça no refeitório e depois vai desfazer suas malas. Separe seus uniformes que a gente vai mandar de volta para o colégio. Infelizmente não vou poder almoçar com você por causa do horário. Mas te encontro no seu quarto depois que minha aula acabar, aí vamos juntas para casa.
Assenti enquanto andávamos pelo corredor. Midori me abraçou forte mais uma vez.
- Estou muito feliz que vamos fazer faculdade "juntas" Yuki!.
Ela me deu um beijinho na bochecha e disparou pelo corredor de volta por onde viemos. A ventania e os cabelos longos balançando me deixaram só com a pasta nas mãos e a bolsa, mas nenhum sinal do mapa que deveria estar com meus horários.
- Oh droga, para onde será que foi o mapa?

Vi que apesar de ter muitas pessoas no corredor, a sala 707 estava cheia de gente, embora todos ainda estavam em pé ou sentados nas mesas. Melhor entrar na sala e procurar um lugar para sentar logo.
Entrei na sala e vasculhei com os olhos em busca de algum lugar em que poderia sentar. Incrivelmente os lugares da frente estavam em parte vagos, o que foi ótimo para mim. Pude sentar na primeira cadeira, como sempre. Coloquei minha bolsa em cima da mesa e comecei a notar meus colegas de classe com os cantos dos olhos.

Todos eles pareciam já se conhecer há muito tempo. Conversavam, riam e faziam brincadeiras uns com os outros. Ninguém usava a mesma roupa, o que era muito estranho para mim. Essa questão de não ter uniforme era ainda novidade e não entrava direito na minha cabeça. Observando de solsaio os meus novos colegas, não tinha como não reparar nos dois ao fundo.
Dois rapazes conversavam animadamente com outros colegas. Um deles era atlético, loiro, olhos azuis, com uma roupa mais justa ao corpo, que ajudava a marcar alguns músculos nos braços. O cabelo era levemente rebelde, com alguns fios para cima. Ele bagunçava o cabelo de propósito e tinha um sorriso que.... Meu Deus, como ele era bonito. AGORA entendo porque a Midori tinha uma queda pelos loiros. 
O outro rapaz que conversava com o loiro estava sentado na mesa, apoiando um pé no encosto da cadeira da frente. Usava calça jeans e uma blusa larga e um casaco de moletom aberto. Seu cabelo era preto e era mais comprido que o de cabelo loiro. Boa parte da franja cobria um pouco do seu rosto. Embaixo do olho esquerdo tinha uma pinta discreta. Seus olhos eram castanhos e seu sorriso era mais tímido do que seu colega, mas igualmente bonito. Os dois eram a personificação dos personagens bidimensionais dos mangás que eu tanto li com Midori. 
Ambos conversavam, mas volta e meia olhavam pela sala. Pareciam estar procurando algum conhecido. Ninguém mais além de mim entrou, mas eles continuaram conversando e olhando na direção da frente da sala. Me pergunto o que eles conversavam com os demais colegas e quem da turma não deve ter vindo hoje. 

O professor entrou na sala, anunciando que iniciaria a aula de bioquímica. Abri meu caderno, peguei minha caneta e me preparei para a matéria. 

sábado, 17 de julho de 2021

Ray - antes das aulas começarem

Mais uma festa dessas de início de ano letivo. Época perfeita para conhecer as gatinhas novas da sala e rever as que já conhecemos. Eu e Phill fomos na festa do dia, prontos para beber umas cervejas e chegar nas meninas. Talvez, se tudo der certo, levar elas para um lugar mais... Reservado. 
Nem eu nem Phill temos muita dificuldade em chegar nelas. Ele é loiro de olho azul, porte atlético, boa pinta. Elas se aproximam dele naturalmente, como se fossem imãs sendo atraído pelo pólo oposto. Já eu aproveito a onda. Talvez seja meu papo, meus cabelos pretos ou mesmo meu ar mais misterioso que atrai elas. O fato é: a gente chega e rapidinho as garotas se aproximam naturalmente. Grandes vantagens. 

Namorada? Não, nem pensar. Se apegar a uma pessoa só não é muito meu estilo, e pelo visto, nem do Phill. A gente quer poder sair a vontade, conhecer gente nova a todo momento, aproveitar muito bem a vida de solteiro. Solteiro sim, sozinho nunca. 

Enquanto a gente (re)conhecia a casa da festa, ouvimos os meninos da nova turma conversando. Como a gente já estava no grupo de calouros da facudade, marcamos uma confraternização pré-aula para enturmar antes das aulas começarem. Bom que dá para conhecer a galera pessoalmente e ver se tem alguma garota ou garoto bonitinho entre eles, essas coisas. A grande novidade definitivamente é da nova garota que entrou na turma de ultimam hora, após o término do período da matrícula, e parece que ela é daquele colégio famoso de freiras. Bebo minha cerveja enquanto observo as meninas começando a rodear o Phill enquanto eu continuo ouvindo a conversa da tal garota nova.
- Parece que ela estudou e viveu a vida inteira no colégio! - dizia um dos garotos
- Pelo que eu fiquei sabendo, ela conseguiu uma bolsa de estudos aqui e vai morar no dormitório - uma das garotas comentou.
Tento beber mais um gole da minha cerveja e percebo que ela está vazia. Phill passa por mim, com uma garota de cabelo preto e muito bonita ao seu lado e me entrega a lata de cerveja dele, intocada. Phill é esperto. Finge tomar as cervejas, vai levando as meninas no papo, conversa daqui, troca uns beijos dali, elas vão indo na dele e logo logo ficam mais animadas. 
- Não, parece que é só essa menina que é novata na turma - o assunto da novata me trás de volta para a realidade. 
Interessante. A novata então estaria na mesma sala que eu e Phill. Definitivamente interessante. Será que ela é bonita? Inteligente com certeza, senão não teria conseguido a tal bolsa que esses calouros estão comentando. 

Phill volta de sei lá onde ele estava com a menina, mas dessa vez volta com outra por perto. Essa possui um olhar travesso, cabelos ruivos e aquele sorriso malicioso que está doida atrás de uma curtição. Ele pára para conversar comigo, enquanto as duas meninas se afastam juntas, rindo.
- Fala Ray. Até agora não achou nenhuma gatinha aí do seu interesse?
- Calado Phill. Eu não sou igual você que precisa de uma garota nova a cada festa.
Nós dois rimos da minha ironia. Toda festa eu e ele estávamos com uma garota nova para curtir. 
- Mas então. Quem são as gatinhas morena e a ruiva? Da nossa sala?
Phill passa as mãos para bagunçar o cabelo. Ele tem essa mania, parece que deixa as mulheres meio loucas por ele. 
- São de outra faculdade. Dá para curtir sem se preocupar se elas vão procurar a gente amanhã. Inclusive a ruiva, Chel, está de olho em você, mas você não sai de perto dessa mesa!
Ri com a "insatisfação" do Phill. Eu curtia beber minha cerveja antes de me aproximar das meninas ou me juntar ao Phill na curtição. A garota ruiva era bonita e eu não tava fazendo nada interessante e também não tinha planos de voltar cedo para casa. 
- Estava ouvindo as novidades pelos colegas - respondi ao Phill enquanto ele me olhava com aquele ar que eu conhecia bem, de quem queria saber o que eu tinha ouvido por aí - tem novata na classe. Veio daquele colégio de freiras.
Phill conhecia meus hábitos de ficar em silêncio em algum canto das confraternizações para ouvir as novidades. Era assim que a gente se inteirava quando tinha novato, se alguém saiu, essas coisas. Ele não tinha muita paciência para ficar ouvindo e eu nem sempre estava afim de começar a conversar sobre a festa com uma garota só para beijar ela depois.
- Seremos agraciados com uma garota nova finalmente?
- Como se ano passado não tivemos um monte de novatas bonitas né? - eu ri dele. Pelo visto, meninas novas nunca são demais.

Ao longe vi as duas garotas voltando, cada uma com uma lata de bebida na mão. A morena se aproximou de Phill e cochichou algo em seu ouvido. Nem precisei ouvir para saber do que se tratava. Uma rápida troca de olhares e eu já sabia. 
Phill foi para algum canto da festa com a garota morena. Chel se aproximou de mim. 
- Então gatinho? 
Me aproximei dela e fomos a algum lugar mais isolado. Talvez não tão isolado, já que outros casais fizeram o mesmo. Encostei ela na parede e me aproximei, beijando aos poucos seu pescoço. 
Ela me puxou pela cintura e seus lábios buscaram os meus. O beijo dela tinha gosto de cerveja misturada com tequila. Apertei levemente minha perna contra o corpo dela para observar sua reação. Ela me agarrou com mais força e me beijava com mais vontade. 

Após um tempo na festa, encontramos Phill e a garota morena e fomos para a segunda parte da noite. Phill já tinha um carro, e, como ele só fingia beber as cervejas, ele costumava dirigir na volta. Tanto para casa quanto para o motel. Hoje, definitivamente seria para o motel. 


quarta-feira, 14 de julho de 2021

Yuki - antes das aulas começarem

As aulas da faculdade já começam amanhã... Nossa, fazia tanto tempo que não me empolgava com um início de ano letivo. Será que vou ter que me apresentar na frente de todo mundo? Será que essas meias realmente vão tampar toda minha perna? Será que essa blusa branca não vai ficar muito transparente? 
São tantas perguntas que rodeiam minha mente.... Esses 18 anos presa dentro desse internato me fizeram ter uma visão tão, sei lá, fraca a respeito do mundo lá de fora. Não tem nada para fazer nesse colégio. É uma construção muito grande, fria, sem acesso aos computadores, livros ou qualquer coisa do meio exterior. Ok, temos livros na biblioteca, mas nenhum deles é interessante o suficiente que valha a pena a leitura. Só não sou uma completa ET porque algumas vezes nós, internas, fazemos umas excursões com as Irmãs para compra de comida, produtos de limpeza, higiene e roupas. 
Meu maior contato com o exterior é com a Midori, minha única amiga desse colégio de freiras. Ela é de uma família tradicional japonesa, não sei porque os pais resolveram colocar ela aqui. Aliás, foi ela quem me deu o apelido de Yuki. Ela dizia que não conseguia pronunciar o meu nome e como eu sou "muito branca", de acordo com ela, então eu sou a Yuki, que é neve. 
Enfim, Midori voltava para a casa dos pais nos feriados, o que me deixava com muito tempo para fazer absolutamente nada. A sorte é que ela sempre trazia novidades com ela a cada saída e encontro com a família. Ela me trouxe um celular smartphone de uma das suas irmãs mais velhas, assim podíamos continuar conversando quando ela estivesse de férias e longe do colégio. Ela trazia mangás para ler. Com Midori que eu aprendi que no Japão, diferente daqui, as histórias são publicadas voltadas para um público específico (crianças, meninas, meninos, mulheres e homens). Aqui as histórias são classificadas em ficção, fantasia, romance.... 
Alguns mangás eram tão velhos que as páginas estavam amareladas e descolando. Eu e Midori gostávamos de ler juntas as histórias que ela trazia, mesmo que a gente tivesse lido 10 vezes sem nunca saber como termina. 
A gente ficava se derretendo pelos personagens bidimensionais daqueles mangás. Midori ficava brincando comigo porque meus personagens favoritos sempre eram os mais misteriosos ou os altos de cabelos e olhos pretos. E os mais gentis. Ela gostava mais dos que eram "mais espertos", os populares e os loiros. Ela sempre dizia "de cabelos pretos já basta eu e toda minha família Yuki. Japoneses não sabem chegar em nenhuma garota". Eu nunca entendi o que ela queria dizer com isso.

Ah, mas você deve estar se perguntando "Mas Yuki, qual o problema de você começar o novo ano letivo e porque é diferente?"
Bom, porque.... Como posso dizer. A faculdade ofereceu uma bolsa de estudos para as internas com as melhores notas. E eu fui uma das alunas. O que é ótimo, porque finalmente poderei viver um pouco longe dessas irmãs. Vou poder ter um quarto com banheiro e cozinha no dormitório na faculdade só meu, sem dividir com outras 10 meninas, sendo 8 que não vão com minha cara. O lado ruim é que a Midori não vai fazer as mesmas matérias que eu, então não vou poder encontrá-la na mesma sala de aula.  Mas ainda nos encontraremos nos feriados e no período após as aulas. E posso recebê-la no meu quarto!! Estou bem empolgada quanto a isso. 

Como a vaga para a faculdade foi bem repentina, estou terminando de fazer minha mala (quem mora a vida inteira no colégio de freiras não tem muito o que guardar, até porque nem temos exatamente um armário para chamar de "meu") e amanhã cedo que vou para a faculdade, com mala e tudo. A madre superiora quem irá me levar e já avisou para eu ir com o uniforme de uma vez, para não atrasar. Como se eu fosse perder a oportunidade de usar o uniforme bonitinho ao invés de usar esse nosso sem graça. O novo uniforme até lembra um pouco os uniformes que eu tanto vi nos mangás shoujo que a Midori sempre trás para a gente ler. 

Bom, minha nova vida começa amanhã. Será que finalmente vou conhecer alguém interessante? Talvez um garoto alto de cabelos pretos, com quem vou poder conversar? Ou quem sabe tenha na minha sala algum menino loiro, assim Midori poderia gostar de alguém também...
Bom, amanhã eu descubro 

sábado, 30 de janeiro de 2021

Infância x Vida adulta

Peter Pan, um garoto que não quis crescer. Leva Wendy, João e Miguel para a Terra do Nunca, onde há sereias, índios e piratas, como o vilão Capitão Gancho. A única coisa que Gancho teme é o crocodilo que comeu sua mão e engoliu um relógio, que faz um ruidoso "Tic Tac Tic Tac" de dentro da fera. Alice persegue um coelho branco de colete vermelho e relógio até cair num buraco e entrar no País das Maravilhas, onde há um gato que desaparece, um Chapeleiro Louco, uma Lebre Maluca, ratos guerreiros. Uma rainha louca que manda e desmanda e adora ver uma cabeça rolar. Pedro, Lúcia, Edmundo, Susana, Eustáquio e Jill, por meio de magia vão para Nárnia, onde há um bondoso Leão e inúmeros vilões e aventuras. Mas, o que essas 3 histórias, tão diferentes fazem reunidas? O que elas têm em comum? Eu me pergunto todo dia "Por que Wendy, Alice e Lúcia voltaram? Por que não ficaram no mundo maravilhoso diante delas e voltaram para a vida que levavam?" São todas crianças. Não queriam adentrar no universo confuso e tortuoso que é o mundo dos adultos. O Crocodilo corria atrás do Gancho, não atrás do menino que não crescia. Lá estava o tempo correndo atrás do adulto, algo que Peter Pan jamais seria. Lá estavam as obrigações perseguindo o pobre adulto, materializada para sempre em um crocodilo. Quem sabe, Gancho não é apenas Peter Pan crescido, mas inconformado? O Coelho Branco sempre dizendo "Estou atrasado, estou atrasado. Está na hora, está na hora." Empurrando para a pobre Alice o início do desespero do mundo que a esperava, o mundo que ela não podia escapar. A difícil batalha contra uma bruxa má. A fuga do navio pirata. A confusão dos tamanhos de Alice. Um chá infinito, animais falantes, sereias. Tudo faz parte da infância. Todas as aventuras infantis, que nos fizeram desejar nunca crescer, como Peter Pan, nunca sair do mundo, como Lúcia, de enfrentar o mundo adulto com inocência, como Alice. O mundo adulto é real e chato. Não tem aventuras, não tem magia nem fantasia. Tudo tem hora, tudo é sério. Os sentimentos atrapalham tudo. Você tem que enganá-los para que não ocorra o contrário. Se eu fosse Lúcia, nunca teria saído de Nárnia e entrado novamente no Guarda-roupa. Se fosse Wendy, não voltaria ao meu quarto para crescer. Se fosse Alice, não teria voltado à chata lição com livros sem figuras. Eu teria ficado e lutado por reinos, brincado com os meninos perdidos e tomado chá para sempre. O Chapeleiro quer que eu fique no País das Maravilhas. Peter Pan não quer que eu saia da Terra do Nunca. Eu não quero sair de Nárnia, nem de Wonderland nem de Neverland. São a minha casa. Mas o Coelho Branco, o Crocodilo e o Leão me puxam com mais força. Acordo de um sonho estranho, no meu quarto, a porta do guarda-roupa aberta. Não! Eu quero voltar! Mas agora é tarde. Eu cresci. E um adulto não é bem vindo ao mundo infantil. Ele não tem tempo, vive cansado e trabalhando. Mas é só fechar os olhos que eles estão lá. O Chapeleiro Louco sorri ao me ver e me oferece uma xícara de chá. Sininho joga um pouco do seu pó em mim e eu levanto do chão. Os anões e centauros querem me contar o que aconteceu. As cartas já pintaram as rosas de vermelho, o Capitão Gancho continua a perseguir Peter Pan. O Gato sorri e desaparece. Pronto, a realidade se torna menos chata.

sábado, 19 de setembro de 2015

Você foi embora

Até outro dia você estava aqui. Me abraçava, me consolava. Porém você se foi. Para sempre. Eu achei que com o tempo, essa dor, essa saudade, iria ficar menos pior, porque não tem como melhorar.
Mas não foi assim que aconteceu.

Até hoje há ainda a mancha de café nas xícaras que você usava. Algumas coisas nunca foram mexidas desde então. Outras foram organizadas, mas mesmo assim ainda me lembro de como as coisas ficavam antes. O seu cheiro ainda está naquele roupão que você usou na última vez que fez frio.

A casa ficou mais fria desde sua partida. Desde então, me sinto solitária. A casa parece que aumenta cada dia mais, esfria cada vez mais.

Ás vezes olho as fotos em que você aparece sorrindo. Me dói o coração saber que nunca mais poderei ver novamente esse sorriso. Que nunca mais poderei te ver. As fotos até parecem se mexer, as pessoas mexendo como quando minutos antes da foto ser tirada. As fotos que não parecem se mexer mais foram dos momentos que não estão muito claros na minha memória. Deve ser assim mesmo, As fotos param de se mexer quando aqueles momentos já estão esquecidos. Já tentei esconder todas as fotos, mas parece que piora. Olhar para elas me faz chorar, mas não tê-las ali me faz chorar ainda mais.

Algumas lembranças boas me fazem chorar. Lembrar de nossas brigas me faz sentir mal. Eram motivos tão bobos, por que perdi tempo com isso? Não consigo deixar de me sentir culpada.

O que mais me dói, além disso tudo, é que sempre que eu me lembro de você, primeiro vem à minha mente as últimas vezes que eu te vi, e essa não era a imagem que eu gostaria de ter. Só depois vem as outras.

Desde então, eu que sempre tive medo, passei a ter mais medo das coisas. Medo de ficar só, medo de perder as outras pessoas que eu amo...

Eu tenho tentado seguir em frente, mas cada dia fica mais difícil. A impressão que eu tenho tido, é que quanto mais eu tento seguir em frente, mais meu interior desmorona. Minha cabeça começa a inventar coisas, fazendo com que eu ache que as pessoas que eu amo têm feito coisas que elas não têm feito, que meus amigos digam coisas de mim e que estão se afastando. Será que eu estou tão destruída por dentro assim?

Às vezes eu não tenho vontade de levantar da cama, e não é um simples "quero dormir mais" é um "Não quero ver nada no mundo, não há nada de bom que me espere", ou então um "estou totalmente sem esperanças". Acho que a expressão "estar totalmente quebrada por dentro" me definiria no momento. Até mesmo pensamentos bem piores já tive, mas até o medo de fazer qualquer um deles me impediu.

Eu prometi que não teria esses pensamentos novamente, mas não é tão fácil assim cumprir minha palavra. Gostaria de me sair melhor nisso, mas não estou conseguindo. Começo a chorar do nada ultimamente.

Já até senti arrependimento por você ter me conhecido. Quem sabe teria tido um final diferente? Mas até mesmo esse pensamento me machuca, apesar da incerteza do meu futuro. Não sei se vou me tornar quem eu gostaria, não sei se isso vai fazer as pessoas ao meu redor felizes, e o mais importante, não sei se isso vai me fazer feliz. Não sei se serei capaz do que eu quero fazer ainda, não sei se vou conseguir ultrapassar esses obstáculos.

Os pedaços do meu coração tentam se unir todos os dias, mas até hoje ele não está curado. Não sei se ele ficará algum dia, e espero não desistir por completo até esse dia chegar.








sábado, 15 de agosto de 2015

Do que você tem medo?

Do que você tem medo?

Tenho medo de falhar. Medo de ser derrotada e não conseguir mais me levantar.

Medo da pessoa que eu tanto amo um dia deixe de me amar e que ela vá embora.

Medo de não conseguir realizar meus sonhos.

Medo de decepcionar as pessoas, e que elas nunca mais confiem em mim.

Medo de que as pessoas que eu amo percam a confiança em mim.

Tenho medo também de pesadelos, mas aqueles pesadelos que trazem meus maiores medos à tona.

Tenho medo de ser esquecida.

Tenho medo de ficar sozinha. Sem ninguém em quem eu possa confiar, em quem eu possa contar, sem ninguém ao meu lado.

Tenho medo de não conseguir superar as dificuldades.

Medo de as dificuldades serem maiores que minhas forças.

Tenho medo de ser abandonada pelas pessoas que eu mais amo.

Medo de não conseguir ter um emprego que eu goste.

Tenho medo da morte.

Tenho medo de perder meus pais.

Tenho medo de perder meu irmão.

Tenho medo de perder minha irmã.

Medo de perder meu namorado, minha namorada.

Tenho medo de perder todas as pessoas que eu gosto.

Tenho medo do futuro.

Tenho medo da solidão e do que ela pode fazer comigo.

Tenho medo de me perder. Para sempre.

Tenho medo do que um pensamento errado pode fazer na minha cabeça.

Tenho medo dos meus pesadelos se tornarem realidade.


Tenho medo do medo.