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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Despedidas

 Ela estava sentada no banco de madeira da praça, olhando para o nada, a garganta tentando processar a informação. Seu pai estava ao seu lado lhe fazendo companhia em silêncio. Era um dia gélido de outono, as folhas amareladas e laranjadas caiam delicadamente no chão quando batia uma brisa leve. Seu pai permaneceria em silêncio até que a filha se manifestasse.

- Pai - ela começou depois de longos minutos - Nunca te perguntei isso. Como foi quando a vovó morreu?

Ela olhou discretamente para ele, com medo que ao menor contato visual, ele pudesse sumir.

- Você era muito pequena não era? - ele perguntou, olhando gentilmente para a filha - foi doloroso. A gente nunca está preparado para ver os pais partirem. Mas era a hora dela. Veja bem, ela estava sofrendo muito, tinha câncer, fez vários tratamentos e nenhum deles deu resultado. Ela não se alimentava direito, não conseguia fazer nada sozinha.... foi difícil vê-la sofrer por tanto tempo...

- Mas....

Ela ia fazer outra pergunta, mas a garganta não deixou ela completar a frase. Ela levantou os olhos e observou os galhos mexendo levemente. Ela se encolheu de frio na cadeira e passou as mãos pelos braços, esperando gerar algum calor. Nem mesmo seu moletom era o suficiente naquele momento.

O pai continuou a observando calado. Mesmo sabendo a dor de ter perdido ambos pais, nem ele poderia imaginar como sua filha estava sofrendo naquele momento.

- E agora, o que farei? - ela perguntou com os olhos marejados e a voz embargada.

- Você vai chorar quando tiver vontade. Vai achar a vida injusta, vai olhar para seus colegas de outra maneira. Mas você também saberá acolher quem irá passar por isso também. A dor não vai se curar. A saudades estará sempre aí. Mesmo que um dia a ferida se feche, ela sempre permanecerá aberta. 

Ele tentou acariciar os cabelos da filha mas recuou. Pegou uma folha nos tons de vermelho no chão e olhou-a atentamente. 

- Você não verá muito sentido a partir de agora. Mas não desista minha filha. A vida ainda vai ter sentido. Você encontrará alguém que te confortará. 

Ela olhou, pela primeira vez, nos olhos do pai. Olhos cansados e gentis. Ela pôde ver seu próprio reflexo. Uma garota assustada, chorosa, ainda mais pela perda.

Seus olhos começaram a lhe trair e formaram lágrimas. Ela tentou engolir o choro, mas uma lágrima teimosa insistiu em sair pela lateral do olho, indo de encontro com a curva do seu nariz. Então a  lágrima teimosa desceu mais um pouco e ela pode sentir o gosto do medo e da tristeza. Outras lágrimas saíram e foram acumulando no seu queixo e aos poucos, molhando os bolsos de seu casaco.

- Queria poder voltar no tempo pai - ela falou soluçando - aproveitar melhor os momentos. Sorrir mais.

- Minha querida - ele falou - os pais não guardam mágoas assim dos filhos, ou pelo menos não deveriam. Eu e sua mãe sabemos o quão maravilhosa você é como filha, tente não se chatear por isso.

Ela limpou as lágrimas na manga da camisa e tornou a olhar seu pai, buscando a gentileza de seu sorriso. Ele estava bem mais magro do que ele já tinha sido e o rosto estava abatido, os cabelos estavam ralos e dava para ver os fios se acumulando em seus ombros. Várias rugas que não existiam desenhavam seu rosto. O brilho dos seus olhos estava se apagando.

- Eu estou tão cansado - ele anunciou para desespero da filha.

Ela apertou os lábios e as lágrimas tornaram a sair. Sua vista começou a embaçar e ela não conseguiu falar tudo que queria.

- Você ainda tem a mamãe - ele disse - se apoiem nesse momento difícil, eu gostaria de ficar mais, mas...eu preciso ir querida.

O pai deu um beijo na testa dela, mas ela mal sentiu por causa do vento. Ela olhou para o lado desesperada e se viu sozinha no banco, as folhas de outono caindo ao soprar do vento.

- Pai.... não vá. Eu..... amo.... você.... mamãe também....

As palavras mal saíram  e ela não sabia se o tinham alcançado. Ela chorava copiosamente, sentindo o vento de outono gelarem seus braços e as gotas da chuva se misturaram às suas lágrimas. 

sábado, 12 de outubro de 2013

Sozinha


Desci, entrei na cozinha e tudo estava como no dia anterior. Exceto pela falta de alguém.
A casa estava totalmente silenciosa. Eu ouvia o farfalhar das folhas ao vento do lado de fora, a geladeira funcionando e as batidas do meu coração. O resto era silêncio absoluto, silêncio de morte.
Procuro pela casa algum sinal de vida, mas não há ninguém, somente eu. Estou sozinha em casa. Acho que dá para sobreviver.
O ritmo dos meus batimentos cardíacos acelera. Minha respiração também. Ouço passos na escada. Corro até a porta, mas ela está trancada.
Me trancaram! Como puderam fazer isso? Agora tem alguém lá em cima tentando me matar e eu não tenho para onde fugir.
Os passos se aproximam. As paredes começam a me pressionar. Não tenho mais para onde ir, não tenho um lugar para me esconder.
Talvez se eu ficar atrás desse sofá, eles não me verão. Mas o meu coração irá me trair novamente, como ele sempre faz.
Vejo a sombra de meu assassino em cima do sofá. Será meu fim.
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'Meu bem, o que você faz escondida atrás do sofá? Calma, não chore.'

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Lágrimas


Eu prometi naquele dia que não choraria mais. Não, eu não vou mais chorar. Além de não chorar, prometi a mim mesma naquele dia que jamais deixaria de buscar aquilo que me é tão precioso. Ninguém ira me atrapalhar agora.
Alguns meses atrás.
-E agora? Estou sozinha? É, parece que sim.
As lágrimas começaram a se formar em seus olhos, olhos castanhos, grandes e sempre brilhantes. Porém, naquele dia, como todos os outros, era exatamente esse brilho que chamava a atenção.  Ela observou com amargura ele se afastando em direção ao sol que se punha no horizonte. As palavras ditas naquela tarde ainda martelavam na cabeça dela. Uma lágrima escapou de seus olhos e desceu até o nariz.
O sol se pôs e ela continuou ali, parada, olhando para aquele relógio prata que ela tinha. Ele marcava as horas com extrema exatidão e ela o guardava com a própria vida. Ela ficou olhando para o sol que acabava de esconder seus últimos raios, e o relógio esfriou em sua mão. Era um relógio bonito, antigo, desses que as pessoas antigamente tinham presos aos casacos. A história daquele relógio ela desconhecia, mas o amava. Ela olhou as horas e tornou a olhar para o sol. Ele já tinha desaparecido. O céu ficou cinzento rapidamente, nuvens pesadas se formavam acima de sua cabeça. Ela apertou aquele relógio contra o peito e as lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto. Suas bochechas ficaram um pouco rosadas e a boca experimentou o gosto salgado que ela conhecia bem.
Os ventos começaram a soprar. Seus cabelos voaram para todos os lados. Ela alisou os cabelos com os dedos enquanto derramava mais lágrimas e soluçava. Começou a  chover. A chuva fria veio devagar e foi aumentando aos poucos. Quem sabe a chuva não lava minha alma? Perguntou ela em voz alta. Ela passou as mãos no rosto, abriu o relógio e olhou novamente as horas.  Uma gota pingou nele, aumentando o número 7. Ela o limpou, fechou-o e guardou-o no bolso. Ficou parada por mais um tempo indefinido e resolveu andar.
Foi caminhando lentamente, pensando em tudo que poderia lhe trazer felicidade, porém não conseguia. Ela então desistiu de pensar. Pôs as mãos no bolso da calça e foi andando para longe. Os cabelos já estavam todos molhados, colados ao pescoço. A blusa estava se encharcando e tornando-se transparente, revelando aos poucos, uma cor forte. A calça mexia com o vento e molhou-se toda, tornando mais escura. Ela segurava com força o relógio dentro do bolso.
As luzes da cidade começaram a iluminar a rua. O asfalto já estava escurecido pelas gotas de chuva, e os sapatos dela não deixavam nada mais como marca. Ela viu uma porta aberta, entrou e sentou num banco perto a uma bancada.
-Gostaria de algo, senhorita? – perguntou o homem detrás da bancada.
-me dê uma dose de uísque, por favor.
Ele encheu um copo e o entregou a ela. Ela sorveu a bebida aos poucos, sentindo prazer em cada gole. A bebida descia queimando-lhe a garganta. Ela pôs o dinheiro encharcado em cima da bancada e voltou à rua. A chuva já diminuíra e não ventava tanto quanto antes. Ela voltou andando para casa, relembrando de tudo que já lhe tinha acontecido. Chegou em casa, abraçou com força seu gato, que miava reclamando da água em seus pelos. Ela o soltou, secou-lhe com uma toalha e foi tomar banho. Tomou um banho gelado, para clarear as ideias. Chorou durante todo o banho, as lágrimas salgadas misturando-se a espuma do sabão escorriam por todo o seu corpo. Nunca mais disse ela nunca mais irei chorar prometeu ela a si mesma. Aquilo depende somente de mim, não vou entregar nas mãos de outra pessoa, terminou ela, solenemente.
Saiu do banho, sentindo-se muito mais leve. Não sorria, olhava com frieza ao redor. Pôs as roupas para secar, o relógio ao lado da cama. Abriu a tampa e olhou as horas. Olhou no calendário e marcou a data na tampa. Jamais vou me esquecer de minha promessa. Ela deitou a cabeça em seu travesseiro, seu gato aninhou-se em sua barriga e ronronou. Ela pôs a mão em cima da cabeça dele e começou a dormir.
Poucos meses depois
Por quê? Perguntou ela, sem obter repostas.  Por quê?  O corpo inerte lhe fez derramar lágrimas e ela se sentiu uma garota sem poder nenhum. Isso é uma causa nobre. As lágrimas rolaram fartas e ela experimentou o gosto salgado que já havia quase esquecido.
Alguns meses depois.
Eu prometi naquele dia que não choraria mais. Não, eu não vou mais chorar. Além de não chorar, prometi a mim mesma naquele dia que jamais deixaria de buscar aquilo que me é tão precioso. Ninguém ira me atrapalhar agora. Ela olhou para frente e procurou o relógio em seu bolso. Ele não estava ali. Ela olhou para sua cama e o viu com a tampa aberta. Ela foi até a cama, olhou as horas, olha para a tampa e a fechou com cuidado. Tornou a olhar para o mesmo ponto de antes, mas agora ela só sentia raiva. Isso não ficará assim. Pensou ela. Não me tornei mais fechada. Só não farei isso novamente. Não na frente, não vou passar pela mesma situação novamente. Eu não vou me esquecer disso.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Despedidas


Nunca gostei de despedidas. Especialmente aquelas que você sabe que serão permanentes, pois é uma despedida de alguém que morreu. Por isso detesto velórios. Quando pequena era tão mais doloroso enterrar meus animais mortos. Agora, dependendo meu animal, já nem sinto mais a dor.
Hoje estou na frente de um túmulo. Seu atestado de óbito está em minhas mãos. O epitáfio é curto e objetivo. Estou só no campo verde e há flores em outros túmulos. Vim sozinha. Não há um ombro amigo em que posso me consolar.
Pessoas com quem me importo e que se importam comigo queriam ter vindo. Sou cabeça-dura e egoísta. Não falei a ninguém o local e a hora do enterro. Preferia ter vindo sozinha do que ouvir um bando de conselhos de pessoas que não estão sofrendo como eu.
Há um ano, esse que morreu já vinha se afastando de mim. Quando pedia para vir me visitar, adiava, sempre tinha outro compromisso. Foi se afastando mais e mais.
Sua última visita veio como uma fagulha de esperança que me esquentou como um beijo. Mal sabia eu que aquela esperança morreria junto com ele. Minha esperança agora está gélida como seu cadáver. Conversávamos quando de repente ele morreu em meus braços.
Como foi agonizante sentir seu último suspiro e o fechar de olhos em meu colo, e eu inerte, sem nada poder fazer. Tentei reanimá-lo de todas as formas, mas ele tornou-se frio.
Ao anunciar sua prematura morte, todos ficaram estarrecidos, pois era algo que ninguém esperava. Todos me consolaram, em vão. Carreguei seu corpo e cavei sua cova. Espero que descanse em paz. Talvez eles nunca me perdoarão por ter feito isso. Não me arrependo.
Você era muito mais querido para mim do que para eles.